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sexta-feira, 11 de maio de 2012
Para meditar!
Um jovem de nível acadêmico excelente, candidatou-se à posição de gerente de uma grande empresa.
Passou a primeira entrevista e o diretor fez a última entrevista e tomou a última decisão.
O diretor descobriu através do currículo que as suas realizações acadêmicas eram excelentes em todo o percurso,
desde o secundário até à pesquisa da pós-graduação e não havia um ano em que não tivesse pontuado com nota máxima.
O diretor perguntou, "Tiveste alguma bolsa na escola?" o jovem respondeu, "nenhuma".
O diretor perguntou, "Foi o teu pai que pagou as tuas mensalidades ?" o jovem respondeu, "O meu pai faleceu
quando tinha apenas um ano, foi a minha mãe quem pagou as minhas mensalidades."
O diretor perguntou, "Onde trabalha a tua mãe?" e o jovem respondeu, "A minha mãe lava roupa."
O diretor pediu que o jovem lhe mostrasse as suas mãos. O jovem mostrou um par de mãos macias e perfeitas.
O diretor perguntou, "Alguma vez ajudaste a tua mãe a lavar as roupas?", o jovem respondeu, "Nunca,
a minha mãe sempre quis que eu estudasse e lesse mais livros. Além disso, a minha mãe lava
a roupa mais depressa do que eu."
O diretor disse, "Eu tenho um pedido. Hoje, quando voltares, vais e limpas as mãos da tua
mãe, e depois vens ver-me amanhã de manhã."
O jovem sentiu que a hipótese de obter o emprego era alta. Quando chegou a casa, pediu feliz à mãe
que o deixasse limpar as suas mãos. A mãe achou estranho, estava feliz mas com um misto de
sentimentos e mostrou as suas mãos ao filho.
O jovem limpou lentamente as mãos da mãe. Uma lágrima escorreu-lhe enquanto o fazia. Era a primeira
vez que reparava que as mãos da mãe estavam muito enrugadas, e havia demasiadas contusões
nas suas mãos. Algumas eram tão dolorosas que a mãe se queixava quando limpava com água.
Esta era a primeira vez que o jovem percebia que este par de mãos que lavavam roupa todo
o dia tinham-lhe pago as mensalidades. As contusões nas mãos da mãe eram o preço a pagar
pela sua graduação, excelência acadêmica e o seu futuro.
Após acabar de limpar as mãos da mãe, o jovem silenciosamente lavou as restantes roupas pela sua mãe.
Nessa noite, mãe e filho falaram por um longo tempo.
Na manhã seguinte, o jovem foi ao gabinete do diretor.
O diretor percebeu as lágrimas nos olhos do jovem e perguntou, "Diz-me, o que
fizeste e aprendeste ontem em tua casa?"
O jovem respondeu, "Eu limpei as mãos da minha mãe, e ainda acabei de lavar as roupas que sobraram."
O diretor pediu, "Por favor diz-me o que sentiste."
O jovem disse "Primeiro, agora sei o que é dar valor. Sem a minha mãe, não haveria um eu com sucesso hoje.
Segundo, ao trabalhar e ajudar a minha mãe, só agora percebi a dificuldade e dureza que é ter algo pronto.
Em terceiro, agora aprecio a importância e valor de uma relação familiar."
O diretor disse, "Isto é o que eu procuro para um gerente. Eu quero recrutar alguém que saiba apreciar a
ajuda dos outros, uma pessoa que conheça o sofrimento dos outros para terem as coisas feitas, e uma pessoa
que não coloque o dinheiro como o seu único objetivo na vida. Estás contratado."
Mais tarde, este jovem trabalhou arduamente e recebeu o respeito dos seus subordinados. Todos os
empregados trabalhavam diligentemente e como equipa. O desempenho da empresa melhorou tremendamente.
Uma criança que foi protegida e teve habitualmente tudo o que quis, vai desenvolver- se mentalmente e vai sempre
colocar-se em primeiro. Vai ignorar os esforços dos seus pais, e quando começar a trabalhar, vai assumir
que toda a gente o deve ouvir e quando se tornar gerente, nunca vai saber o sofrimento dos seus empregados e
vai sempre culpar os outros. Para este tipo de pessoas, que podem ser boas academicamente, podem ser bem
sucedidas por um bocado, mas eventualmente não vão sentir a sensação de objetivo atingido. Vão resmungar,
estar cheios de ódio e lutar por mais. Se somos esse tipo de pais, estamos realmente a mostrar amor ou
estamos a destruir o nosso filho?
Pode deixar o seu filho viver numa grande casa, comer boas refeições, aprender piano e ver televisão num grande plasma.
Mas quando cortar a grama, por favor deixe-o experienciar isso. Depois da refeição, deixe-o lavar o seu prato
juntamente com os seus irmãos e irmãs.Deixe-o guardar seus brinquedos e arrumar sua própria cama. Isto não é
porque não tem dinheiro para contratar uma empregada, mas porque o quer amar como deve de ser. Quer que ele
entenda que não interessa o quão ricos os seus pais são, um dia ele vai envelhecer, tal como a mãe daquele jovem.
A coisa mais importante que os seus filhos devem entender é a apreciar o esforço e experiência da dificuldade e
aprendizagem da habilidade de trabalhar com os outros para fazer as coisas.
Quais são as pessoas que ficaram com mãos enrugadas por mim?
O valor de nossos pais...
Um dos mais bonitos textos sobre educação familiar que já li...leitura obrigatória para
pais e filhos.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Queremos o MELHOR
Melhor
Leila Ferreira é uma jornalista mineira com mestrado em Letras e doutora em Comunicação, em Londres. Apesar disso, optou por viver uma vidinha mais simples, em Belo Horizonte... Autora do texto abaixo.
Estamos obcecados com "o melhor".
Não sei quando foi que começou essa mania, mas hoje só queremos saber do "melhor".
Tem que ser o melhor computador, o melhor carro, o melhor emprego, a melhor dieta, a melhor
operadora de celular, o melhor tênis, o melhor vinho.
Bom não basta.
O ideal é ter o top de linha, aquele que deixa os outros pra trás e que nos distingue, nos faz sentir importantes, porque, afinal, estamos com "o melhor".
Isso até que outro "melhor" apareça e é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer.
Novas marcas surgem a todo instante.
Novas possibilidades também. E o que era melhor, de repente, nos parece superado, modesto, aquém do que podemos ter.
O que acontece, quando só queremos o melhor, é que passamos a viver inquietos, numa espécie
de insatisfação permanente, num eterno desassossego.
Não desfrutamos do que temos ou conquistamos, porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter.
Cada comercial na TV nos convence de que merecemos ter mais do que temos.
Cada artigo que lemos nos faz imaginar que os outros (ah, os outros...) estão vivendo melhor,
comprando melhor, amando melhor, ganhando melhores salários.
Aí a gente não relaxa, porque tem que correr atrás, de preferência com o melhor tênis.
Não que a gente deva se acomodar ou se contentar sempre com menos.
Mas o menos, às vezes, é mais do que suficiente.
Se não dirijo a 140, preciso realmente de um carro com tanta potência?
Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho que subir na empresa e assumir o cargo de chefia que vai me matar de estresse porque é o melhor cargo da empresa?
E aquela TV de não sei quantas polegadas que acabou com o espaço do meu quarto?
O restaurante onde sinto saudades da comida de casa e vou porque tem o "melhor chef"?
Aquele xampu que usei durante anos tem que ser aposentado porque agora existe um melhor e dez vezes mais caro?
O cabeleireiro do meu bairro tem mesmo que ser trocado pelo "melhor cabeleireiro"?
Tenho pensado no quanto essa busca permanente do melhor tem nos deixado ansiosos e nos impedido de desfrutar o "bom" que já temos.
A casa que é pequena, mas nos acolhe.
O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria.
A TV que está velha, mas nunca deu defeito.
O homem que tem defeitos (como nós), mas nos faz mais felizes do que os homens "perfeitos".
As férias que não vão ser na Europa, porque o dinheiro não deu, mas vai me dar a chance de estar perto de quem amo...
O rosto que já não é jovem, mas carrega as marcas das histórias que me constituem.
O corpo que já não é mais jovem, mas está vivo e sente prazer.
Será que a gente precisa mesmo de mais do que isso?
Ou será que isso já é o melhor e na busca do "melhor" a gente nem percebeu?
Leila Ferreira é uma jornalista mineira com mestrado em Letras e doutora em Comunicação, em Londres. Apesar disso, optou por viver uma vidinha mais simples, em Belo Horizonte... Autora do texto abaixo.
Estamos obcecados com "o melhor".
Não sei quando foi que começou essa mania, mas hoje só queremos saber do "melhor".
Tem que ser o melhor computador, o melhor carro, o melhor emprego, a melhor dieta, a melhor
operadora de celular, o melhor tênis, o melhor vinho.
Bom não basta.
O ideal é ter o top de linha, aquele que deixa os outros pra trás e que nos distingue, nos faz sentir importantes, porque, afinal, estamos com "o melhor".
Isso até que outro "melhor" apareça e é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer.
Novas marcas surgem a todo instante.
Novas possibilidades também. E o que era melhor, de repente, nos parece superado, modesto, aquém do que podemos ter.
O que acontece, quando só queremos o melhor, é que passamos a viver inquietos, numa espécie
de insatisfação permanente, num eterno desassossego.
Não desfrutamos do que temos ou conquistamos, porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter.
Cada comercial na TV nos convence de que merecemos ter mais do que temos.
Cada artigo que lemos nos faz imaginar que os outros (ah, os outros...) estão vivendo melhor,
comprando melhor, amando melhor, ganhando melhores salários.
Aí a gente não relaxa, porque tem que correr atrás, de preferência com o melhor tênis.
Não que a gente deva se acomodar ou se contentar sempre com menos.
Mas o menos, às vezes, é mais do que suficiente.
Se não dirijo a 140, preciso realmente de um carro com tanta potência?
Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho que subir na empresa e assumir o cargo de chefia que vai me matar de estresse porque é o melhor cargo da empresa?
E aquela TV de não sei quantas polegadas que acabou com o espaço do meu quarto?
O restaurante onde sinto saudades da comida de casa e vou porque tem o "melhor chef"?
Aquele xampu que usei durante anos tem que ser aposentado porque agora existe um melhor e dez vezes mais caro?
O cabeleireiro do meu bairro tem mesmo que ser trocado pelo "melhor cabeleireiro"?
Tenho pensado no quanto essa busca permanente do melhor tem nos deixado ansiosos e nos impedido de desfrutar o "bom" que já temos.
A casa que é pequena, mas nos acolhe.
O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria.
A TV que está velha, mas nunca deu defeito.
O homem que tem defeitos (como nós), mas nos faz mais felizes do que os homens "perfeitos".
As férias que não vão ser na Europa, porque o dinheiro não deu, mas vai me dar a chance de estar perto de quem amo...
O rosto que já não é jovem, mas carrega as marcas das histórias que me constituem.
O corpo que já não é mais jovem, mas está vivo e sente prazer.
Será que a gente precisa mesmo de mais do que isso?
Ou será que isso já é o melhor e na busca do "melhor" a gente nem percebeu?
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Arnaldo Jabor - e mais uma dentro
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
O que é adultério
Os homens ainda traem mais que as mulheres, mas as estatísticas estão caminhando para uma situação igualitária de maneira rápida. Além disso, o número de pessoas que traem também cresce de modo contínuo e veloz. Não tardará o dia em que todos nós, ao menos uma vez, não só será corno (ou corna), mas saberá disso de modo bem claro. E isso não em situações de namoro ou casamentos pouco sugestivos, mas mesmo em casamentos promissores ou efetivamente duradouros.
Não é o caso aqui de falar de motivos para o adultério. A literatura diz melhor sobre isso que a filosofia. O que me interessa aqui é a própria situação de adultério, ou seja, o que a caracteriza se a olhamos não pelo que seria o vulgar, mas pela descrição tentada a partir da filosofia.
A traição é o rompimento de uma confiança que se imagina ser mútua. Na situação pré-moderna a traição entre amigos era mais condenada que a traição entre cônjuges. A modernidade – e todo o seu fundamento profundamente romântico – inaugurou a equiparação entre essas formas de traição e, de certo modo, até mesmo a ampliação da condenação no segundo caso. A adoção da união “por amor”, e não por qualquer outro motivo, fabricou essa nova situação.
ArendtO casamento “por amor” implica no consenso inicial pactuado na intimidade e, portanto, às relações sexuais e institucionais da união soma-se a própria cláusula da amizade. De um modo geral, nos meios caracteristicamente urbanos, a união atual que é a procurada é a que funde dois requisitos: satisfatórias relações sexuais e amizade. Sendo assim, toda a carga emotiva da amizade entra, agora, em um espaço que, em princípio, seria só do sexo e de resquícios de tradições das obrigações matrimoniais do passado. Na lírica de Rita Lee, amor sem sexo é amizade, no pentagrama da vida urbana contemporânea, amor para o casamento é exatamente, então, a amizade com sexo. Desse modo, a traição ganha força dupla – ela rompe não laços que podem ser formais, mas elos da confiança mútua – a amizade – que fixava o horizonte que se prometia comum. Por isso, nos tempos contemporâneos, justamente em uma época que os mais distraídos pensam que “uma traição amorosa não conta mais nada”, ela conta muito. Quem trai não ofende a honra do outro e, sim, se tudo é descoberto ou contado, magoa os sentimentos do outro e fere seu orgulho próprio de modo inaudito. Caso uma constelação celeste desfavorável se insinue, há então situações de confronto espetaculares e trágicas.
HeideggerO que se passa na traição que não temos coragem de contar, talvez nem para nós mesmos, diz respeito a uma completa complexidade de sentimentos. Muitos não se dão conta dos detalhes dos sentimentos ou porque que se observam pouco ou, inversamente, porque se observam muito e ficam chocados com suas reações psicológicas.
A primeira coisa que o cônjuge traído imagina diz respeito ao momento de intimidade que o parceiro ou a parceira viveu com o terceiro elemento. Tudo se passa como se o cônjuge traído fosse levado para a cama de um terceiro elemento a contragosto. O traído sente-se invadido, devassado, exposto. Seu sentimento é o de que é ele que foi levado ao sexo – e de modo desagradável, pois com o estranho. Assim, não é de se achar esquisito que a mesma fantasia do “sexo com o estranho”, que deixa muitos homens e mulheres excitados, reapareça no momento exato em que os casais brigam por conta de traições Assim, não raro, em meio a fantásticas discussões, repentinamente eles se reconciliam, fazem sexo e, após isso, se não voltam a brigar logo em seguida, se engalfinham em bate-bocas e desforras no dia seguinte, ou em maquinações piores. O momento do sexo, no dia anterior, não foi uma reconciliação em toda a extensão da palavra, mas apenas uma situação opaca, criada pela fantasia latente do sexo com o estranho. O estranho, nesse caso, pode funcionar como um fantasma bem específico na imaginação dos dois envolvidos, inclusive cumprindo um papel homossexual, num sentido amplo da palavra.
Casais em meio a uma briga podem fazer sexo, sendo que o traído, nesta hora, imagina o parceiro fazendo sexo com o terceiro elemento – isso parece algo não homossexual, mas, em certo sentido, há sim um componente homoerótico aí envolvido. Há aí a competição, a luta imaginária entre rivais. É claro que as relações de sadismo e masoquismo emergem neste contexto, quase que invariavelmente. Sodomizo minha mulher porque quero, agora que sei que ela pode ter feito sexo com outro, puni-la e/ou mostrar para ela que sou mais homem que o outro. Sodomizo minha mulher porque sempre quis agir assim, mas nunca a vi como mulher sexualizada – objetificada – o suficiente para tal. Então, como ela se mostra ou se fez desejosa de outro, eu avanço o sinal que eu mesmo havia colocado (eis aí o meu erro) de não tratá-la de modo não objetificado. Essa sodomização pode ser simplesmente o coito anal ou mesmo o coito vaginal com alguns tapas etc., nada além. Mas, ao mesmo tempo em que meu sadismo se amplia, mantenho meu sofrimento latente na medida em que o outro que esteve no meu lugar, também esteve ali presente, na minha fantasia quase que impossível de deter. Esse outro fez da minha mulher o que quis, com o consentimento dela. Sofro com isso e o ato sexual perdura meu sofrimento, necessário agora para o meu prazer real – o masoquismo – e, enfim, também para a minha mulher. A mulher, nesta hora, percebe que despertou o marido para algo que ela queria e sabia que queria, ou que, talvez, nem soubesse tanto que queria. Mutatis mutandis tudo isso vale inversamente, para a mulher.
Alguns casais seguem em frente após isso. Há quem diga: foram cicatrizadas as feridas. Não! Ou ao menos não no sentido de que os prazeres envolvidos no despertar do sadismo e do masoquismo desapareceram. Caso as feridas tenham sido cicatrizadas, as chances de ocorrer novamente são grandes. Pois a ferida misturada ao sexo pode ser um ingrediente necessário para aquele casal. Há mulheres que percebem isso e, amando de fato seus maridos, sugerem que os traíram para que a fantasia do jogo sado-masoquista possa estar presente, tênue ou não, no decorrer do casamento. Esquecem-se elas que talvez nem precisassem de tal coisa, pois seus homens, na calada da noite no sexo com elas, sempre estiveram fantasiando, imaginando situações em que elas os corneavam. Isso é muito mais comum do que podemos obter por mensurações estatísticas feitas por psicólogos amadores.
Os homens tendem menos a criar situações, reais ou fictícias, de que estão traindo suas mulheres. Uma boa parte dos homens acha que é melhor “andar na linha”, visivelmente ou realmente, pois podem machucar suas mulheres (ou perder o controle delas por falta de legitimidade moral nas relações de poder que montam um casamento). Há, ainda, uma grande culpa do homem em relação à mulher, pelo fato dele exercer, ainda que não individualmente, uma supremacia social. Mas, logo agirão assim também, ou seja, podendo insinuar uma pequena traição, pois em uma sociedade como a contemporânea os papéis masculinos e femininos, caracterizados antes por “psicologias”, vão desaparecendo em função de um comportamento semelhante e unificado.
Muitos que observam casais que viveram situações de traição imaginam que os divórcios não saíram porque os casais foram hipócritas e, se odiando eternamente, viveram juntos por “pressões sociais”. Às vezes essa verdade que não se conta é, no fundo, apenas uma mentira. Ou seja, a pressão social contou menos do que imaginamos. O grande filósofo alemão, Heidegger, que inclusive chegou por um momento a ter simpatias com o nazismo, viveu uma paixão com uma aluna bem mais jovem, a judia Hanna Arendt que, depois, se tornou também uma filósofa famosa. Heidegger nunca se divorciou. Depois, já sem os encontros com Arendt, ele manteve outros casos extraconjugais com alunas, cada vez mais distantes de sua idade. Sua mulher sempre esteve ali, ciente, consciente, vigilante e compreensiva. Sim, compreensiva, mas dona da situação. Arendt a odiou a vida toda. Todavia, sabe-se que a mulher de Heidegger confessou a ele que amou o médico do casal. As cartas mostram que Heidegger soube disso, inclusive soube (ou sempre soube) que um de seus filhos era, em verdade, filho do médico. Heidegger nunca deixou de amar o filho e jamais se separou da mulher. Eles tinham todo um conjunto de segredos de polichinelo para compartilhar. Olhando de fora, pode-se dizer: o grande filósofo nunca foi nada além de um babaca. Não teve coragem de deixar a família para viver o grande amor com a deliciosa e inteligente judia. Mas, será esta a verdade? Ou, a quatro paredes, este casal, o filósofo e sua esposa, não tiveram uma vida sexual das melhores, um amor aparentemente burguês e, no fundo, além do amor burguês? Caso tenha sido isto, talvez o mecanismo sado-masoquista, a que aludi acima, tenha estado presente na cama deles, segurando eternamente o casamento. Nunca saberemos a verdade. Por isso mesmo, a história é boa. E dá o que pensar.
A situação do adultério é evitável. Muitos que se sabem poligâmicos podem optar pela monogamia. Os que não se tomam como poligâmicos têm mais dificuldade em serem monogâmicos por opção. Mas, como já disse, não é esta a questão aqui. A questão aqui era só a de descrever a situação de adultério. Ou seja, o que queria era poder dizer: o que ocorre no adultério é isso – e foi o que eu disse. Ou quase, porque o que falei está longe de ser um padrão. Vamos continuar acreditando que não nos comportamos de modo padronizado e, assim, cada um que vier a ler este meu texto poderá, ainda, conversar comigo e dizer “Ah, Paulo, o que falou, não tem nada a ver – ao menos comigo”. Ou seja, poderá ainda conversar comigo.
Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo e escritor e está lançando entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010 dois áudio books, “O que é marxismo?” e “Nietzsche apaixonado” (Universidade Falada) e um livro A aventura da filosofia (Manole)
Não é o caso aqui de falar de motivos para o adultério. A literatura diz melhor sobre isso que a filosofia. O que me interessa aqui é a própria situação de adultério, ou seja, o que a caracteriza se a olhamos não pelo que seria o vulgar, mas pela descrição tentada a partir da filosofia.
A traição é o rompimento de uma confiança que se imagina ser mútua. Na situação pré-moderna a traição entre amigos era mais condenada que a traição entre cônjuges. A modernidade – e todo o seu fundamento profundamente romântico – inaugurou a equiparação entre essas formas de traição e, de certo modo, até mesmo a ampliação da condenação no segundo caso. A adoção da união “por amor”, e não por qualquer outro motivo, fabricou essa nova situação.
ArendtO casamento “por amor” implica no consenso inicial pactuado na intimidade e, portanto, às relações sexuais e institucionais da união soma-se a própria cláusula da amizade. De um modo geral, nos meios caracteristicamente urbanos, a união atual que é a procurada é a que funde dois requisitos: satisfatórias relações sexuais e amizade. Sendo assim, toda a carga emotiva da amizade entra, agora, em um espaço que, em princípio, seria só do sexo e de resquícios de tradições das obrigações matrimoniais do passado. Na lírica de Rita Lee, amor sem sexo é amizade, no pentagrama da vida urbana contemporânea, amor para o casamento é exatamente, então, a amizade com sexo. Desse modo, a traição ganha força dupla – ela rompe não laços que podem ser formais, mas elos da confiança mútua – a amizade – que fixava o horizonte que se prometia comum. Por isso, nos tempos contemporâneos, justamente em uma época que os mais distraídos pensam que “uma traição amorosa não conta mais nada”, ela conta muito. Quem trai não ofende a honra do outro e, sim, se tudo é descoberto ou contado, magoa os sentimentos do outro e fere seu orgulho próprio de modo inaudito. Caso uma constelação celeste desfavorável se insinue, há então situações de confronto espetaculares e trágicas.
HeideggerO que se passa na traição que não temos coragem de contar, talvez nem para nós mesmos, diz respeito a uma completa complexidade de sentimentos. Muitos não se dão conta dos detalhes dos sentimentos ou porque que se observam pouco ou, inversamente, porque se observam muito e ficam chocados com suas reações psicológicas.
A primeira coisa que o cônjuge traído imagina diz respeito ao momento de intimidade que o parceiro ou a parceira viveu com o terceiro elemento. Tudo se passa como se o cônjuge traído fosse levado para a cama de um terceiro elemento a contragosto. O traído sente-se invadido, devassado, exposto. Seu sentimento é o de que é ele que foi levado ao sexo – e de modo desagradável, pois com o estranho. Assim, não é de se achar esquisito que a mesma fantasia do “sexo com o estranho”, que deixa muitos homens e mulheres excitados, reapareça no momento exato em que os casais brigam por conta de traições Assim, não raro, em meio a fantásticas discussões, repentinamente eles se reconciliam, fazem sexo e, após isso, se não voltam a brigar logo em seguida, se engalfinham em bate-bocas e desforras no dia seguinte, ou em maquinações piores. O momento do sexo, no dia anterior, não foi uma reconciliação em toda a extensão da palavra, mas apenas uma situação opaca, criada pela fantasia latente do sexo com o estranho. O estranho, nesse caso, pode funcionar como um fantasma bem específico na imaginação dos dois envolvidos, inclusive cumprindo um papel homossexual, num sentido amplo da palavra.
Casais em meio a uma briga podem fazer sexo, sendo que o traído, nesta hora, imagina o parceiro fazendo sexo com o terceiro elemento – isso parece algo não homossexual, mas, em certo sentido, há sim um componente homoerótico aí envolvido. Há aí a competição, a luta imaginária entre rivais. É claro que as relações de sadismo e masoquismo emergem neste contexto, quase que invariavelmente. Sodomizo minha mulher porque quero, agora que sei que ela pode ter feito sexo com outro, puni-la e/ou mostrar para ela que sou mais homem que o outro. Sodomizo minha mulher porque sempre quis agir assim, mas nunca a vi como mulher sexualizada – objetificada – o suficiente para tal. Então, como ela se mostra ou se fez desejosa de outro, eu avanço o sinal que eu mesmo havia colocado (eis aí o meu erro) de não tratá-la de modo não objetificado. Essa sodomização pode ser simplesmente o coito anal ou mesmo o coito vaginal com alguns tapas etc., nada além. Mas, ao mesmo tempo em que meu sadismo se amplia, mantenho meu sofrimento latente na medida em que o outro que esteve no meu lugar, também esteve ali presente, na minha fantasia quase que impossível de deter. Esse outro fez da minha mulher o que quis, com o consentimento dela. Sofro com isso e o ato sexual perdura meu sofrimento, necessário agora para o meu prazer real – o masoquismo – e, enfim, também para a minha mulher. A mulher, nesta hora, percebe que despertou o marido para algo que ela queria e sabia que queria, ou que, talvez, nem soubesse tanto que queria. Mutatis mutandis tudo isso vale inversamente, para a mulher.
Alguns casais seguem em frente após isso. Há quem diga: foram cicatrizadas as feridas. Não! Ou ao menos não no sentido de que os prazeres envolvidos no despertar do sadismo e do masoquismo desapareceram. Caso as feridas tenham sido cicatrizadas, as chances de ocorrer novamente são grandes. Pois a ferida misturada ao sexo pode ser um ingrediente necessário para aquele casal. Há mulheres que percebem isso e, amando de fato seus maridos, sugerem que os traíram para que a fantasia do jogo sado-masoquista possa estar presente, tênue ou não, no decorrer do casamento. Esquecem-se elas que talvez nem precisassem de tal coisa, pois seus homens, na calada da noite no sexo com elas, sempre estiveram fantasiando, imaginando situações em que elas os corneavam. Isso é muito mais comum do que podemos obter por mensurações estatísticas feitas por psicólogos amadores.
Os homens tendem menos a criar situações, reais ou fictícias, de que estão traindo suas mulheres. Uma boa parte dos homens acha que é melhor “andar na linha”, visivelmente ou realmente, pois podem machucar suas mulheres (ou perder o controle delas por falta de legitimidade moral nas relações de poder que montam um casamento). Há, ainda, uma grande culpa do homem em relação à mulher, pelo fato dele exercer, ainda que não individualmente, uma supremacia social. Mas, logo agirão assim também, ou seja, podendo insinuar uma pequena traição, pois em uma sociedade como a contemporânea os papéis masculinos e femininos, caracterizados antes por “psicologias”, vão desaparecendo em função de um comportamento semelhante e unificado.
Muitos que observam casais que viveram situações de traição imaginam que os divórcios não saíram porque os casais foram hipócritas e, se odiando eternamente, viveram juntos por “pressões sociais”. Às vezes essa verdade que não se conta é, no fundo, apenas uma mentira. Ou seja, a pressão social contou menos do que imaginamos. O grande filósofo alemão, Heidegger, que inclusive chegou por um momento a ter simpatias com o nazismo, viveu uma paixão com uma aluna bem mais jovem, a judia Hanna Arendt que, depois, se tornou também uma filósofa famosa. Heidegger nunca se divorciou. Depois, já sem os encontros com Arendt, ele manteve outros casos extraconjugais com alunas, cada vez mais distantes de sua idade. Sua mulher sempre esteve ali, ciente, consciente, vigilante e compreensiva. Sim, compreensiva, mas dona da situação. Arendt a odiou a vida toda. Todavia, sabe-se que a mulher de Heidegger confessou a ele que amou o médico do casal. As cartas mostram que Heidegger soube disso, inclusive soube (ou sempre soube) que um de seus filhos era, em verdade, filho do médico. Heidegger nunca deixou de amar o filho e jamais se separou da mulher. Eles tinham todo um conjunto de segredos de polichinelo para compartilhar. Olhando de fora, pode-se dizer: o grande filósofo nunca foi nada além de um babaca. Não teve coragem de deixar a família para viver o grande amor com a deliciosa e inteligente judia. Mas, será esta a verdade? Ou, a quatro paredes, este casal, o filósofo e sua esposa, não tiveram uma vida sexual das melhores, um amor aparentemente burguês e, no fundo, além do amor burguês? Caso tenha sido isto, talvez o mecanismo sado-masoquista, a que aludi acima, tenha estado presente na cama deles, segurando eternamente o casamento. Nunca saberemos a verdade. Por isso mesmo, a história é boa. E dá o que pensar.
A situação do adultério é evitável. Muitos que se sabem poligâmicos podem optar pela monogamia. Os que não se tomam como poligâmicos têm mais dificuldade em serem monogâmicos por opção. Mas, como já disse, não é esta a questão aqui. A questão aqui era só a de descrever a situação de adultério. Ou seja, o que queria era poder dizer: o que ocorre no adultério é isso – e foi o que eu disse. Ou quase, porque o que falei está longe de ser um padrão. Vamos continuar acreditando que não nos comportamos de modo padronizado e, assim, cada um que vier a ler este meu texto poderá, ainda, conversar comigo e dizer “Ah, Paulo, o que falou, não tem nada a ver – ao menos comigo”. Ou seja, poderá ainda conversar comigo.
Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo e escritor e está lançando entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010 dois áudio books, “O que é marxismo?” e “Nietzsche apaixonado” (Universidade Falada) e um livro A aventura da filosofia (Manole)
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